A Ética Neopentecostal e o Espírito do Neoliberalismo

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Em sua primeira entrevista após as eleições presidenciais, o petista Fernando Haddad mencionou estudos que apontavam sua baixa votação entre os evangélicos como uma das explicações para a derrota. Ele propôs uma reflexão sobre o assunto:

– “A Ética Protestante e o Espírito Capitalista” é um clássico do Max Weber. A gente deveria pensar na “Ética Neopentecostal e o Espírito do Neoliberalismo.”

Não tenho pretensões intelectuais, mas em razão das minhas vivências e estudos sobre o segmento, ouso tentar oferecer alguns elementos que possam ajudar a explicar como o pensamento neopentecostal se confunde com a lógica capitalista ou neoliberal. Para tanto, precisamos nos debruçar sobre as teologias que regem o movimento que mais cresce entre as igrejas evangélicas.

A primeira e mais difundidas delas é a chamada Teologia da Prosperidade. Nela, o crente é levado a uma experiência religiosa de barganha com o divino. Algo muito próximo das primeiras experiências capitalistas.

Ainda que não haja uma “moeda” intermediando as relações, o evangélico neopentecostal vê em Deus um realizador das suas necessidades mais prementes ou dos seus desejos mais ambiciosos. A fé é o investimento naquilo que, acredita-se, trará retorno quase imediato e com lucros milagrosos.

Mas não basta crer. Segundo os pastores, o fiel precisa concretizar esta sua aposta através de ofertas e sacrifícios. Quanto maior o investimento, maior o retorno. A divindade assume, portanto, o papel de um grande banco. Ele, através dos seus representantes comerciais, garante que o negócio será rentável na forma de cura, posses materiais, fama e poder.

Esta lógica difere em muito do Evangelho. Nele, Deus é apresentado como um Pai que se relaciona com seus filhos por meio de um amor totalmente gracioso. Não há mérito ou “investimento” que O mova a tornar o crente mais abençoado. Tudo é de graça, pela graça, sem pagamentos, sem barganhas.

O neopentecostalismo vende a ideia de sucesso com características bem terrenas. Nada é para o céu, para depois. Como “filhos do Rei”, os fieis são ensinados a exigir, determinar, reivindicar o melhor desta terra. E só podem fazê-lo se materializarem a fé através de grandes ofertas.

O liberalismo econômico também faz tais promessas, numa espécie de teologia da prosperidade chamada “meritocracia”. Quem não alcançou o sucesso financeiro, certamente falhou, não se esforçou o suficiente ou foi incapaz em algum aspecto.

De forma semelhante, os pastores da prosperidade colocam a culpa da não realização dos milagres prometidos na falta de fé da maioria e tomam alguns poucos exemplos de êxito como um padrão para continuar fazendo a roda da arrecadação girar. Assim, a fé neopentecostal subsiste na “meritocracia evangélica”.

A Teologia do Domínio, por sua vez, centra-se na pregação da necessidade de cristianizar o mundo como condição para que o Reino de Deus se estabeleça. Os evangélicos, escolhidos para “ser cabeça e não cauda”, devem se colocar nas posições de poder político e, através das leis civis, moldar os padrões morais e culturais das nações. Os líderes, como ungidos inquestionáveis, exercem controle e naturalizam a aceitação de discursos autoritários.

A expansão da bancada evangélica evidencia como esta pregação faz sucesso nos púlpitos pentecostais e neopentecostais. Ela encontra eco no coração de um povo ávido por soluções imediatas. A Teologia da Prosperidade é o meio, a Teologia do Domínio é o fim. Unidas, elas transformam grande parte das igrejas em verdadeiros comitês eleitorais, movidas por pensamentos triunfalistas, ambiciosos e dóceis diante do discurso ditatorial.

Talvez isto ajude a entender o porquê de Jair Bolsonaro ter sido recebido com ares messiânicos. Não votar nele, em certos nichos, equivaleria a cometer um pecado imperdoável. Ele encarnou as promessas de um “governo cristão” que, por consequência, anunciaria tempos prósperos para a nação.

4 comentários

  1. Muito bom. Expõe muito bem a teologia neoprotestante (teologia da prosperidade e teologia do domínio) e maravilhosa e concisamente a teologia católica. E promessas para um povo exasperado, pronto a apostar em qualquer proposta que sugira solução de seus problemas.

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