A DEMONIZAÇÃO DO PENSAMENTO DE ESQUERDA

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Temos assistido a uma certa onda teológica favorável ao liberalismo de mercado, numa tentativa de praticamente sacralizá-lo. A ideia central, porém, é decorrência natural da iniciativa de demonizar o pensamento de esquerda, como se ele fosse oposto a Deus e às diversas manifestações de fé.

Ao que me consta, classificar a religião com “ópio do povo” não me parece uma crítica injusta. As recentes eleições brasileiras mostraram como ela é atual. Discutimos temas inacreditáveis numa campanha presidencial (kit gay, etc.), ao invés de debater os problemas centrais do país (desemprego, educação, saúde pública…). O pleito virou uma espécie de jihad ou cruzada para alguns religiosos.

Temos experiências boas e ruins no trato de governos de esquerda para com o Cristianismo. Contar só a parte nefasta não me parece honesto. No Brasil, por exemplo, as igrejas evangélicas experimentaram o maior crescimento da sua história nos governos petistas, agraciadas inclusive com isenção fiscais.

Historicamente, diferentes regimes de governo foram responsáveis por ditaduras, assassinatos e promoção de profundas mazelas sociais. Mas é preciso frisar: Todos estes males nunca foram exclusividade de apenas um campo ideológico.

A direita e a esquerda guardam no escopo das suas afirmações propósitos que jamais deveriam ser vistos como ruins. Resguardar as liberdades individuais ou enfatizar a prioridade das preocupações coletivas, com mais ou menos presença do Estado, objetivam, em última análise, um mundo mais justo. Pelo menos na teoria.

Ocorre que as visões divergentes esbarram num problema comum, apontado pelo próprio Cristianismo: a natureza humana. Aqui reside, portanto, aquela que entendo seria a maior contribuição da Teologia junto às ciências humanas. Lembrar que a corrupção inerente ao coração humano pode inviabilizar aquilo que há de melhor no pensamento ideológico, seja qual for ele.

Os que ideologizam a fé falam das milhões de mortes provocadas por regimes socialistas ou comunistas. No entanto, omitem genocídios, guerras e fome promovidos por governos capitalistas em números até maiores. Todavia, aqui está a questão central, bastaria apenas que uma vida se perdesse para constatar que os erros dos sistemas políticos, na verdade, são originários da inclinação humana para o mal.

O totalitarismo, por exemplo, já ganhou várias faces ideológicas no decorrer da história, à direita e à esquerda. E nem precisamos entrar na discussão sobre todas as formas de violência que o próprio Cristianismo já produziu.

A liberdade plena, ainda que só na Economia, como defendem nossos liberais teólogos tupiniquins, promove na prática um capitalismo selvagem. Entregue à própria vontade, a natureza humana, como nos lembra o apóstolo Paulo, em Romanos, não produz outra coisa senão o mal. Ganância desenfreada, acumulação de posses, concentração de renda e as mais cruéis formas de exploração também decorrem da pecaminosidade que caracteriza os homens. Sem um ente regulador, sabemos o que efetivamente ocorre.

No livro A Revolução dos Bichos, George Orwell apontou problema similar no pensamento de esquerda. Uma vez no governo, as premissas de igualdade deram lugar ao despotismo, à corrupção e ao favorecimento de quem dominava o poder. A célebre frase “todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros” ilustra bem a perversão, na prática, do pensamento ideológico pela prevalência da natureza pecadora dos homens (no caso, bichos) que governavam.

Sou de esquerda. Creio que o Estado cumpre papel regulador e deva ser agente para atenuar desigualdades, olhar pelos que mais sofrem e promover justiça social. O idolatro? De forma alguma.

Fosse assim, diversos governos de esquerda mundo afora não teriam apostado em mecanismos de controle e transparência. Por não abrir mão da democracia, creio que reside nela o maior instrumento de “dessacralização” do ente estatal.

Na antítese deste modelo, o que nos é oferecido causa ainda mais desconfiança. O amor ao dinheiro, raiz de todos os males, sempre foi algo tido como tão grave que até o seu deus (Mamon) foi colocado como opositor direto do Senhor, nas palavras do próprio Jesus Cristo (Mateus 6:24).

O liberalismo costuma confiar ainda mais na natureza humana. Ele advoga menos controle, menos regulação e mais liberdade. Livre demais para “competir” dentro do regime capitalista, sabemos do que o coração humano é capaz. Os teólogos esqueceram?

Isto, porém, não faz do pensamento socialista um sacramento da Igreja. Deus não é de esquerda ou de direita. Pensar assim é blasfemar contra a Sua soberania e poder. Ele transcende toda compreensão humana e é grande demais para caber dentro de uma ideologia.

O erro, portanto, está em querer demonizar algo pelo simples fato de não gostar ou concordar com um modelo. Este maniqueísmo jamais produziu bons frutos para o mundo e, muito menos, para os cristãos.

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