A KU KLUX KLAN EVANGÉLICA

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O movimento puritano teve início no século XVII, na Inglaterra. Ele se opunha tanto a igreja católica, quanto ao ritualismo característico dos anglicanos. Em termos teológicos, era definido como um avivamento e caracterizado pela busca de santificação, culto genuíno e correção moral.

Os puritanos chegaram aos EUA. Em terras americanas, fundaram igrejas e tentaram seguir os princípios do movimento original. Ocorre, porém, que tempos depois os seus ensinamentos acabaram sendo distorcidos, transformando-se em mero discurso moralista. Na base da perversão do original, um claro sentimento de superioridade.

Saudosistas não do conteúdo, mas do sentido de superioridade moral, evangélicos americanos não tiverem dificuldades para se colocar nos pilares da fundação da Ku Klux Klan. A eles se somaram, militares e comerciantes. Seu fundador, inclusive, era um general mercador de escravos: Nathan Bedford Forrest. O jornal de publicação semanal deles se chamava, vejam vocês, “The Good Citizen” ou “O Cidadão de Bem”.

Não precisamos discorrer muito sobre as práticas da KKK. Em nome da moral cristã e do patriotismo, perseguiram e segregaram os negros, queimaram templos por eles frequentados, estupraram mulheres, enforcaram pessoas. O moralismo passou a justificar o ódio.

Como já mencionado anteriormente, no cerne de tudo estava uma pretensa superioridade moral. Quem não pertencesse ao seleto grupo dos “cidadãos de bem” não merecia conviver com eles, frequentar os mesmos lugares, acessar os mesmos direitos ou, no extremo, até mesmo continuar vivendo. É do pastor Alexandre Gonçalves uma frase que explica oque vem a seguir:

“A boa teologia (protestante) foi destilada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra, apodrecida nos Estados Unidos e consumida no Brasil”.

O que ocorre atualmente em significativa parte das igrejas evangélicas brasileiras exemplifica a analogia proposta pelo pastor. Com a mesma ênfase moral, identificados como “cidadãos de bem”, “defensores da família tradicional e dos bons costumes”, um discurso político toma para si o título de defensor da moralidade cristã, grita nas ruas e nas redes que seus adversários serão banidos “para Cuba, para a Venezuela” e, nos casos extremos, agridem, achincalham moralmente. Na origem de tudo, julgam inferiores todos os que não pertencem ao seleto grupo dos escolhidos.

Não é incoerente afirmar que os evangélicos brasileiros são até mais vulneráveis a este tipo de onda. Aqui, o apreço pelo conteúdo bíblico expositivo nunca foi cultivado em muitas comunidades. Em seu lugar, uma pregação ufanista, triunfalista e recheada de moralismos e legalismos. Usos e costumes, como a roupa que se veste, o adereço que se usa ou os lugares por onde se anda foram incorporados como sinais de santidade e espiritualidade.

Enquanto o Evangelho revela um Cristo que se esvaziou de Si mesmo e assumiu a forma de servo, aqui se cultua o líder, o “grande homem de Deus”. Enquanto em suas cartas, o apóstolo Paulo diz de si ser o mais miserável dos homens, o mais desprezível pecador, aqui se exalta a soberba que, de cima do palco, de maneira altiva e vingativa, olha para os outros que a viram passar na prova e não a ajudaram. O sabor da vingança, dizem, tem gosto de mel.

Este sentimento de superioridade encontra no discurso de Bolsonaro onde reverberar, sem que o simpatizante precise explicitamente se assumir assim. Nesta lógica, o crente pode continuar dizendo amar o pecador, mas cultuar um político que diz: “ter vizinho gay desvaloriza o imóvel”. O frequentador de igreja pode se apresentar como cristão e se ver representado num homem que convida uma multidão a “meltralhar os petralhas” e os expulsar de seu estado natal.

Contraditoriamente, evangélicos continuam dizendo que amam a todos indistintamente, mas fazem propaganda/pregação de alguém que afirma que negros são malandros (Mourão) ou que devem ser pesados em arrobas. Enfim, Bolsonaro é o grito histriônico de uma gente que se entende moralmente superior e, com discurso supremacista, mais merecedora do direito de existir e para quem os privilégios devam ser reservados.

A Ku Klux Klan evangélica não consegue encontrar embasamento para o seu discurso e se defende atacando. Argumentar com eles é pedir para ouvir sempre um “mas”… “Mas os petistas”, “mas Lula”, ‘mas os comunistas”, “mas o governo”, “mas a família”, “mas os gays”, etc.

Impossível mesmo é ouvir deles: “…, mas Cristo faria o mesmo”. Eles sabem que Ele não faria, sabem que o discurso de ódio não encontra lugar em Jesus.

Talvez ainda não saibam, mas muitos deles, diante de um juiz em praça pública, também gritariam “crucifica-o!”, com o mesmo sentimento de superioridade moral que fez os judeus escolherem crucificar o Filho de Deus.

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Com a colaboração do Pr. Ivan Braga.

1 comentário

  1. “A boa teologia (protestante) foi
    Destilada na Alemanha,
    Envelhecida na Inglaterra,
    Apodrecida nos Estados Unidos e
    Consumida no Brasil”
    Com a Teologia veio uma Aculturação Sintética, bem Coca Cola e Mc Donald na Satisfação Consumista que infunde o “O Sonho de Consumo” Como uma meta indispensável à Vida.
    Essa Aculturação se manifesta nesses “Evangélicos” que buscam Prosperidade de bens (Pentecostais e NeoPentecostais) enquanto outros chamam de Buscar Conforto (Históricos e Conservadores), ambos ajuntam Tesouros na Terra e onde está o Tesouro, está o Coração.
    O “Vale quanto Pesa” Define:Espiritualidade; Supremacia; Ser Irmão ou Irmãozinho; Liderança; Imunidade (Valor do Dízimo); (…)
    Um Cristianismo rebaixado aos Valores do Mundo Capital.

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