O EVANGELHO SEGUNDO SEGUIDORES DE BOLSONARO

Bolsonaro-no-Gideões

No livro Maravilhosa Graça, de Philip Yancey, há uma passagem que, quando li, provocou em mim uma reação dolorosamente constrangida, envergonhada. Eu era muito novo na minha caminhada de fé e, como é próprio dos imaturos, confundia ser cristão com ser moralista.

O trecho narrava a história de uma mulher que prostituía sua filha, uma criança. O amigo de Yancey a convidou a visitar sua igreja, mas ouviu dela: “Para que ir à igreja? Para me sentir pior do que já sou?“

Para quem está de fora, muitas comunidades cristãs deixaram de ser referenciais de amor, acolhimento, graça, para se tornarem tribunais morais, que condenam, julgam e separam bons e maus, de acordo com os padrões religiosos que impõem. Não deveria ser assim, caso olhássemos para Cristo como guia para nossa forma de agir.

Se alguém acha que o que escrevi pode significar uma espécie de licenciosidade, permissividade, precisa ler de novo não só o que escrevi, mas também o Evangelho. Ele não negocia com o pecado, mas transborda de graça e perdão.

Minha incursão por esse espectro moralista é apenas para demonstrar o que mais sustenta alguns discursos atuais, que conseguem confundir púlpito e palanque, eleição e testemunho cristão. Vivemos dias perigosos, onde o messianismo tomou de assalto uma vitoriosa campanha presidencial e encontrou, nos cristãos, propagadores de ideias maniqueístas: um candidato (que veio a ser eleito) era a salvação, outro a perdição, um celestial, outro infernal, um de Deus, outro do diabo.

Sim, eu estou me referindo a Bolsonaro e seus apoiadores. Em nome da moral e dos bons costumes, crentes reproduzem discursos do candidato como:

“Não tem que dar o peixe, mas ensinar a pescar”.

“O cara é pobre porque não quer trabalhar, coisa de vagabundo.”

“Bandido bom é bandido morto”.

“Cidadão de bem não anda em certos meios”.

Analisemos caso a caso:

Não há nas Escrituras base para que pessoas em vulnerabilidade social, por conta da flagrante desigualdade que lhes nega educação, renda e trabalho devam ser acusadas de “vagabundas”. Ao contrário, são diversas as passagens onde se exorta a igreja a olhar pelo necessitado, a atender órfãos e viúvas naquilo que precisassem.

É odiosa, preconceituosa e, até diria, demoníaca a ideia de que pessoas passam fome só porque não querem trabalhar. Há uma história, um entorno social que rouba de muitos as oportunidades.

Reitero. O Evangelho não nos autoriza a culpar o pobre pela sua pobreza ou ao enfermo pela sua doença.

Foi Cristo quem nos ensinou que todos estamos sujeitos às mesmas tribulações: “…faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:45).

Em Mateus 25: 35–40, veja você, Cristo diz com quem Ele se identificaria nos nossos dias. Acredite, não seria com os poderosos, os autoritários, os religiosos, os que julgam, os que gritam ou com os que odeiam:

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.

Em outro aspecto, parece que alguns cristãos resolveram empreender uma peregrinação de volta ao Antigo Testamento, aos tempos do “olho por olho, dente por dente”. Todavia, no sermão da montanha, Cristo é definitivo ao anunciar: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”, Mateus 5:9.

Vamos a um caso concreto bem conhecido. No ordenamento jurídico judaico, uma mulher apanhada em adultério deveria morrer apedrejada. Uma adúltera é trazida a Cristo por religiosos ávidos por sangue. Hoje, segundo o “evangelho” dos seguidores de Bolsonaro, muitos diriam: “apedreja essa vagabunda!”

Jesus, ao contrário, disse: “… quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra” (João 8:7). Logo em seguida, todos foram saindo constrangidos e somente restou a mulher.

Cristo pergunta a ela: “Mulher, onde estão seus acusadores? Ninguém a condenou? Eu também não a condeno!” (João 8:10–11).

Não há como justificar esse ímpeto sanguinolento, justiceiro, de quem deveria transmitir amor, concórdia, união. Porém, em recente ocasião, Bolsonaro convocou seus eleitores do Acre a “metralhar a petralhada” e expulsar os petistas do estado, mas encontrou aprovação de diversos evangélicos.

Afinal, não foi dito que o cristão deve amar o inimigo e orar por ele? Jesus deixou de ter autoridade sobre a igreja e repassou-a ao candidato? Não há, queridos, como conciliar o Evangelho e essa sanha raivosa.

Os erros de quem quis transformar o apoio ao Bolsonaro numa espécie de critério para definir se alguém é ou não cristão são tão evidentes, que custa acreditar que usem a Bíblia para embasar tal pregação político-religiosa.

É imperioso lembrar que Cristo foi acusado pelos fariseus da sua época de conviver com prostitutas, beberrões, cobradores de impostos (corruptos). Ao responder a tais acusações, Ele disse que não são os saudáveis que necessitam de médico, mas os doentes.

A atitude de nos isolar dos ambientes que não nos agradam não é cristã. O julgamento de ser moralmente superior a essas pessoas, muito menos.

O orgulho de afirmar que somos “cidadãos de bem” e os outros escória, porque não gostamos do seus estilos de vida, não encontra base em nenhum ensino de Jesus Cristo, nem no espírito do Evangelho que nos convoca à humildade e ao reconhecimento das nossas debilidades como pecadores que somos. É ao encontro, portanto, de quem está distante do Evangelho que quem deseja ser sal e luz deve ir, estejam onde estiverem.

Por fim, eu gostaria muito que, na hora de discutirmos uma eleição, assuntos morais ou religiosos não ocupassem a centralidade. Isto nos aliena do real papel de um Chefe de Estado.

O estado laico foi uma bandeira protestante. A separação TOTAL entre Igreja e Estado era defesa ferrenha dos reformadores. Vamos eleger o presidente da república e não um aiatolá, um tutor de costumes. Temas morais até são discutidos e decididos no Congresso, não pelo presidente da república.

Todavia, há quem tenha votado crendo que o sobrenome Messias faça de Bolsonaro um enviado de Cristo. Ele não é, uma vez que nada em seu discurso revela o amor de Jesus. Nada.

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