OS DIREITOS HUMANOS E A BÍBLIA

Por Hermes C. Fernandes

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A origem dos direitos humanos

O movimento pelos direitos humanos teve sua origem na era moderna. Lá, pelos idos do final do século XVIII, em plena revolução industrial, acontece a Revolução Francesa, que teve seu programa esboçado em seu documento central chamado de “Declaração dos Direitos do Homem.”[1] Anos antes, em 1776, os Estados Unidos da América tinham produzido em sua “Declaração de Independência”, uma declaração de princípios bem semelhante, que poderia ser considerada como um embrião da Declaração dos Direitos do Homem.

A Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma a origem divina desses direitos quando se postula que “todos os homens são iguais, porque Deus os dotou com os mesmos direitos.” Por outro lado, ainda que a Declaração dos Direitos do Homem da Revolução Francesa não mencione o Deus Criador, falando apenas do “Ser Supremo” transparece nela sua herança religiosa ao declarar que esses direitos são sagrados e invioláveis.

Apesar de mencionar os direitos dos cidadãos como sagrados, ao definir quem seriam considerados cidadãos, a declaração francesa deixa a maioria da população fora do seu escopo. Já nos Estados Unidos, nem índios, nem negros eram incluídos entre os seres humanos “que Deus tinha criado.” Portanto, percebe-se claramente que tais declarações ainda eram expressões de uma classe social: a burguesia. Entretanto, devem ser consideradas um passo importante na luta e afirmação pelos direitos de todos os seres humanos.

Somente no final da década de quarenta, mais precisamente em 1948[2], após duas grandes guerras mundiais em que a crueldade humana pareceu chegar ao seu apogeu, a Comissão de Direitos Humanos da recentemente criada ONU elaborou um documento que consagraria os direitos fundamentais do ser humano. Nessa declaração são listados todos os direitos próprios e inalienáveis de todo ser humano, os quais devem ser respeitados por todos os países signatários.

O principio básico pelo qual é regida afirma que todo ser humano nasce em condições de liberdade e igualdade de direitos e que por estar dotado de raciocínio e de consciência, deve procurar a convivência com seus congêneres. Daqui se derivam as premissas de liberdade de pensamento e consciência, independentemente de raça, sexo ou religião. Atribui-se, também, o direito de uma vida livre e com segurança, e se sublinha a unidade essencial da família humana.

O que as Escrituras teriam a dizer acerca de tão caro tema? Seria correto afirmar que elas oferecem a base de sustentação para qualquer reivindicação de direitos humanos? Acredito piamente que sim.

Dentre todos os profetas, talvez nenhum tenha se debruçado mais sobre o tema do que Amós, o profeta caubói. Seu ministério profético aconteceu durante o reinado de Uzias em Judá e de Jeroboão II em Israel. O reino, agora dividido entre reinos do norte e do sul, estava sob o domínio Assírio. Diferentemente de outros profetas de pedigree, Amós não vinha de uma família sacerdotal. Vaqueiro e agricultor[3], atividades nômade e sedentária respectivamente, conhecia profundamente a realidade na qual seu povo estava mergulhado. Por isso mesmo, tornou-se num ferrenho crítico ao poder econômico, político e religioso de seu tempo, conclamando seus concidadãos à tomada de consciência, e a uma postura condizente com as demandas da justiça e da misericórdia.

CRÍTICAS AO PODER ECONÔMICO

Sem dúvida, o período em que Jeroboão II[4] reinou em Israel foi um dos mais prósperos de sua história. Graças ao comércio com outras nações vizinhas, a riqueza do reino aumentou consideravelmente. Entretanto, isso não impediu uma acentuada desigualdade social entre ricos e pobres. Escavações arqueológicas realizadas na região da Samaria, então capital de Israel, evidenciavam a existência de moradias miseráveis ao lado de um bairro residencial rico. Eram como favelas vizinhas de condomínios luxuoso, efeito colateral de um sistema erigido sobre a ganância.

Os moradores de Samaria pareciam estar em paz com esta realidade. Afinal de contas, a teologia de muitos dos profetas contemporâneos de Amós afirmava que a prosperidade econômica era um sinal de aprovação e bênção divinas. Portanto, independentemente dos efeitos colaterais indesejados, o importante era que Israel estava vivendo um florescimento quase sem precedentes de suas atividades econômicas. Porém, enquanto o rico estava cada vez mais rico, o pobre estava cada vez mais pobre. Na contramão de seus colegas, Amós denunciou aquela prosperidade como ilusória, haja vista que apenas uma ínfima parcela da sociedade desfrutava dela. Mas colocar em xeque a visão teológica prevalecente em seus dias lhe renderia a pecha de excêntrico, doido varrido, uma espécie de maluco-beleza, o profeta Gentileza de sua época.

Sem titubear, Amós mirou sua metralhadora profética nos comerciantes que se justificavam no ritualismo religioso enquanto exploravam seus concidadãos.

“Ouvi isto, os que esmagais o pobre, que excluís os humilhados do país! “Quando vai passar a festa da lua nova — dizeis —, para negociarmos a mercadoria? Quando vai passar o sábado, para expormos o trigo, diminuir as medidas, aumentar o peso, utilizar balanças mentirosas, comprar o fraco por dinheiro, o indigente por um par de sandálias, para negociarmos até o farelo do trigo.” [5]

Algo semelhante fora denunciado por Isaías: “Pois dia a dia me procuram; parecem desejosos de conhecer os meus caminhos, como se fossem uma nação que faz o que é direito e que não abandonou os mandamentos do seu Deus. Pedem-me decisões justas e parecem desejosos de que Deus se aproxime deles. ‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste? ’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados.”[6]

Sempre há um jeitinho de conciliar nossas crenças e práticas religiosas com nossa insaciável ganância e o nosso hedonismo. Somos capazes de guardar dias santos, oferecer nossos dízimos e ofertas, jejuarmos e refrearmos nossos apetites carnais, enquanto prosseguimos em privar nossos semelhantes de seus direitos fundamentais.

Os comerciantes dos dias de Amós cumpriam fielmente os preceitos religiosos da Lua nova, prescrito uma vez ao mês, e do sábado. Durantes as celebrações religiosas abstinham-se de fazer negócios. Entretanto, anelavam ansiosamente para retornarem ao balcão de negócios no dia seguinte na busca desenfreada por lucro às custas da exploração alheia.

CRÍTICAS AO PODER POLÍTICO-RELIGIOSO

A religião costuma a ter poder inebriante sobre os que preferem viver em função de seus interesses mais mesquinhos. Definitivamente, Deus não se deixa comprar pelos nossos cultos mais pomposos. Pelos lábios de Amós, Ele mesmo confessou:

“Sou contra, detesto vossas festas, não sinto o menor prazer nas vossas celebrações! Quando me fazeis subir fumaça dos holocaustos… não aceito vossas oferendas nem olho para os sacrifícios de carne gorda. Afasta de mim a algazarra de teus cânticos, a música de teus instrumentos nem quero ouvir. Quero apenas ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual regato que não seca.”[7]

É óbvio que alguém que contesta uma religiosidade frívola e denuncia nossas tentativas de comprar Deus, certamente será convidado a se retirar. Por isso, Amós ouviu dos lábios de Amasias: “Ó visionário, vai embora! Some para a terra de Judá! Vai ganhar a vida fazendo lá tuas profecias. Não me venhas mais profetizar em Betel. Isto aqui é um santuário real, uma dependência do palácio do rei!.”[8]

O sistema combate qualquer um que queria emperrá-lo, mas incentiva os que insistem em lubrificar suas engrenagens. A religião pode servir a ambos os intentos. Amasias era chefe dos sacerdotes de Betel, e como funcionário do rei, respondia direto ao palácio real, negligenciando, assim, seu papel de servo de Deus. Por isso, vê em Amós uma ameaça ao status quo. Seu inusitado pedido tinha o propósito de conservar a ordem econômica, social, política e religiosa na região.

Amós revelou-se contrário à prática religiosa descomprometida com o direito e a justiça, que visava garantir tão somente a tranquilidade de consciência e o bem estar da elite de Israel.

Seguindo a tradição dos profetas hebreus, Amós faz diversas denúncias pertinentes que transcendem a realidade de seu tempo, tornando-o, por assim dizer, um precursor na defesa dos direitos humanos. Dentre as denúncias, destacamos algumas abaixo:

DENÚNCIA DE XENOFOBIA

Israel se orgulhava de ser o povo eleito de Deus, porém, havia se esquecido de que a promessa feita a Abraão, seu patriarca, era de que através de sua descendência, todas as nações da terra seriam igualmente abençoadas.[9] Ser a nação escolhida não significa ser detentor do monopólio do sagrado. Apesar das Escrituras afirmarem que Israel seria propriedade exclusiva do Senhor, título repassado à igreja, Deus não é exclusividade de povo algum.[10] Ele é o Deus de todos os povos, o rei das nações, o Senhor dos mundos.

Amós deixa claro que o mesmo Deus que agiu em benefício de Israel, também agiu em benefício de outros povos, inclusive daqueles considerados seus desafetos.

“Por acaso, filhos de Israel, sois diferentes dos etíopes para mim? Eu não tirei Israel da terra do Egito? Mas não tirei também os filisteus de Caftor? Não fiz os sírios saírem de Quir?”[11]

Esta palavra, sem dúvida, foi um golpe na arrogância nacionalista de Israel. Os filisteus, assim como os sírios, também tiveram o seu próprio êxodo. Portanto, não fazia sentido olhá-los de cima para baixo, como se fosse a nação predileta de Deus. Ainda que Deus, “nos tempos passados”, tenha deixado andar “todas as nações em seus próprios caminhos”, “contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo”, beneficiando-as desde o céu, provendo-lhes de chuvas e estações frutíferas, e enchendo de mantimento e de alegria os seus corações.[12] Mesmo não recebendo as devidas glórias, Deus não as desamparou, entregando-as à própria sorte. Mas garantiu a sua subsistência.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo testifica que “de um só sangue”, Deus fez “toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação.”[13] O que nos leva a concluir que as fronteiras que delimitam os territórios das nações têm um prazo de validade. A atual configuração geopolítica mundial é fruto de guerras e acordos internacionais. Não há um pedacinho de qualquer que seja o território de uma nação que não tenha custado derramamento de sangue, seja na história recente ou antiga.

Não importa a cor e a tonalidade de nossa pele, o sangue que corre em nossas veias é invariavelmente vermelho. Ainda que haja diversidade de etnias, todavia, só há uma raça humana.

Não há razões para se crer numa superioridade étnica, como a defendida por Hitler e sua agenda eugenista.[14] Portanto, todos devem ser igualmente tratados com respeito e dignidade.

A atual onda nacionalista que varre o mundo é uma ameaça ao futuro da sociedade humana. Um retrocesso! Devo concordar com Albert Einstein ao afirmar que o nacionalismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade. Assim como a chegada da modernidade pôs fim ao regime feudal, a pós-modernidade deve pôr um fim à noção que temos de nação. Desde que Yuri Gagarin[15] avistou a terra como um globo azul, nossa perspectiva de mundo mudou drasticamente. Somos uma aldeia global. Não faz mais sentido matar e morrer por um patriotismo cego. E nada medida em que nossa visão do universo foi se alargando, percebemos nosso minúsculo planeta como um grão de areia girando em torno de uma estrela de quinta grandeza, perdida nas periferias da galáxia, o que nos remete à Escritura que diz: “Na verdade as nações são como a gota que sobra do balde; para ele são como o pó que resta na balança; para ele as ilhas não passam de um grão de areia.”[16]

Nenhum Estado deveria ser objeto de nossa devoção. Pelo menos, é o que entendo ao ler as Escrituras a partir de Jesus. Ele relativizou todas as estruturas de poder. Muito mais importante do que elas é a humanidade. Cristo não ofereceu Sua vida por Estados ou governos, mas pela humanidade. Portanto, devemos abandonar esta visão provinciana, atendendo ao convite do escritor de Hebreus: “Saiamos, pois, a ele (Cristo) fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” [17] “Cidade” aqui deve ser entendida como civilização. A pátria pela qual anelamos não tem fronteiras, nem bandeiras. Trata-se, antes, de uma realidade celestial, não no sentido de ser algo etéreo, pós-morte, mas de ser uma sociedade erigida ao redor do trono da graça, em que o único vínculo que nos une é o amor.[18]

Que chegue logo a hora em que ser brasileiro, ou americano, ou irlandês, já não será motivo de orgulho. Nascer aqui ou acolá é inevitável, mas vangloriar-se disto é uma postura estreita e potencialmente danosa. Paulo compreendeu isso claramente. Por isso, ainda que pudesse gloriar-se de sua origem étnica, sendo “hebreu de hebreus”, preferiu encarar a aparente vantagem como verdadeiro prejuízo. “O que para mim era lucro”, conclui o apóstolo, “considerei-o perda por amor de Cristo.”[19]

A humanidade é uma única comunidade, composta de povos de diversas etnias e línguas que formam um enorme caldeirão cultural. Conceitos racistas e separatistas como o nacionalismo nos privam deste entendimento.

Concordo com comediante norte-americano Doug Stanhope ao dizer que o nacionalismo ensina a odiar as pessoas que nunca conhecemos e ter orgulho de realizações das quais não participamos. É, portanto, um tipo de alienação.

Prefiro fazer coro com Pietro Gori: “Nossa Pátria é o mundo inteiro, nossa lei é a liberdade.” [20] O que parece fazer eco às palavras de Paulo: “A Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós.”[21]Somos filhos do futuro. Filhos da liberdade. Filhos de um mundo sem fronteiras. Não somos filhos da “Jerusalém que agora existe”, que “é escrava com seus filhos.”[22]Em outras palavras, não pertencemos a esta configuração geopolítica atual prestes a caducar, nem a este sistema opressor que explora e devora seus próprios filhos. Pertencemos a outra ordem, cuja origem é celestial e não terrena. Somos cidadãos do reino de Deus, em que distinções sexistas, sociais e étnicas já não existem.[23] Celebremos, pois, o fato de que “as coisas velhas já se passaram e tudo se fez novo.”[24]

DENÚNCIA DE TORTURA E TÁTICAS CRUÉIS DE GUERRA

“Assim diz o Senhor: Não perdoarei a Damasco por seus três crimes e, agora, por mais este: trilharam a Gileade com trilhos de ferro.”[25]

“Por seus três crimes e, agora, por mais este…” – Trata-se de um recurso estilístico que visava indicar que a paciência de Deus estava se esgotando. Damasco era a capital da Síria, um reino poderoso, adversário frequente de Israel ao longo de sua história. Gileade era uma região ao leste do Jordão, que apesar de pertencer a Israel desde a sua conquista, era disputada pelos sírios que eventualmente a conseguiam dominar. A expressão “trilharam com trilhos de ferro” indica crueldade e desumanidade na guerra. Após a ceifa, o trigo era disposto na eira, uma superfície plana e dura como a pedra ou terra batida. Um boi puxava um trenó de madeira pela eira. O ferro engatado no fundo do trenó separava os grãos das cascas de trigo. Era assim que os exércitos sírios estavam fazendo aos filhos de Israel no afã de tomar Gileade.

Mesmo em tempo de guerra, deve-se levar em conta os valores humanos, respeitando, sobretudo, a população civil. Até o maior adversário deve ser tratado com humanidade. Daí vem o conceito de “guerra justa”, cunhada por Agostinho, inspirada em Cícero, e defendida por vultos como Tomás de Aquino, dentre outros. A doutrina da guerra justa é um conjunto de regras de conduta que define em quais condições a guerra é uma ação moralmente aceitável. Não é por ser uma guerra que pode-se apelar ao vale tudo. Até mesmo nossos inimigos devem ter seus direitos garantidos.

Quem luta do lado oposto da trincheira é tão humano quanto quem luta ao nosso lado. Sem as devidas precauções, seremos reduzidos a monstros, desprovidos de qualquer traço de humanidade. Ainda que o outro lado já tenha se desumanizado, lançando mão de procedimentos cruéis, devemos nos manter leais à nossa consciência, preservando assim a nossa humanidade. Como disse Nietzsche, “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Para o filósofo alemão, as dificuldades da vida são como uma escola que pode nos endurecer e até nos transformar em pessoas cruéis, todavia, no final, essa será uma opção pessoal. Como dizia Sartre, “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Cada um responde de acordo com que tem dentro de si.

Viktor Frankl[26] comenta em seu livro “Em busca de sentido” que até nas circunstâncias mais adversas o ser humano tem o direito de decidir qual será sua postura diante do mundo. Sobre sua passagem pelos campos de concentração em Auschwitz, Viktor relatou que alguns prisioneiros se embruteciam e colaboravam em atos de tortura, agindo contra os próprios companheiros, ao passo que outros consolavam os doentes acamados e dividiam com eles seu último pedaço de pão. “Mesmo que não esteja em suas mãos mudar uma situação dolorosa, é sempre possível escolher a forma de lidar com o sofrimento”, afirmou.[27]

Há quem prefira esconder-se por trás da maldade do mundo para dar asas à sua própria perversão. Entretanto, os atos alheios jamais devem justificar os nossos.

TORTURA

O uso da tortura é injustificável, levando-se em conta a dignidade humana. Se a crueldade com os animais é terminantemente proibida na Bíblia[28], quanto mais a crueldade contra seres humanos que são a imagem e semelhança de Deus.[29]

Ao ser esbofeteado por ordem do sumo sacerdote, Paulo declarou que dar um tapa em um prisioneiro antes da condenação sob o devido processo legal seria uma violação da lei.[30] Ora, se um simples tapa era contrário à lei, logo, impingir qualquer sofrimento a um ser humano antes que seja devidamente julgado e condenado deve ser considerado ilegal. E veja que não estou me referindo à violação dos direitos humanos, mas a infringir a lei do próprio Deus. E convém salientar que a lei não se aplica somente ao “natural da terra”, mas também ao “estrangeiro que peregrina entre vós”, tendo em vista que há uma “mesma lei” para ambos.[31]

Nicodemos, o mestre fariseu, argumentou ante os seus pares que julgar um indivíduo ou uma multidão como inimigos do Estado sem que tenham sido condenados em um tribunal é contrário à lei.[32] Lançar mão do expediente da tortura para extrair informações de um suspeito é presumir que o indivíduo seja culpado sem o devido processo judicial a que ele tem direito.

De acordo com os princípios bíblicos que regulam os procedimentos numa guerra, um inimigo poderia ser morto em combate, mas se o conflito terminou, os prisioneiros não devem ser tratados de forma desumana. Um exemplo disso pode ser encontrado em 2 Reis 6:21-23:

“Quando o rei de Israel os viu, perguntou a Eliseu: “Devo feri-los, meu pai? Devo feri-los? “Ele respondeu: “Não! Costumas matar prisioneiros que capturas com a tua espada e o teu arco? Manda-lhes servir comida e bebida e deixa que voltem ao seu senhor”. Então preparou-lhes um grande banquete e, terminando eles de comer e beber, mandou-os de volta para o seu senhor. Assim, as tropas da Síria pararam de invadir o território de Israel.”

Tal procedimento era adotado como regra, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento. Tanto Salomão, quanto Paulo vaticinam:

“Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber. Assim fazendo, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele, e o Senhor te recompensará.” Provérbios 25:21-22

“Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Romanos 12:20,21

“Amontoar brasas sobre a sua cabeça” aponta para o fato de que tratar o inimigo com gentileza e humanidade faria com que sua consciência se abrasasse, sensibilizando-o e constrangendo-o pelo amor. É neste mesmo sentido que Davi pede em seu famoso Salmo 23: “Prepara-me uma mesa na presença dos meus inimigos.” Engana-se quem pensa que Davi estivesse rendido a um espírito vingativo, almejando tripudiar sobre seus desafetos. Pelo contrário, o homem segundo o coração de Deus desejava partilhar seu próprio pão com aqueles que o odiavam. Ele não pretendia tortura-los ou coisa parecida, mas constrange-los com um gesto de amor e solidariedade.

Algo parecido com o que se vê no livro “Os Miseráveis” de Victor Hugo.[33] Jean Valjean, o protagonista do célebre romance, é um homem que vive uma situação de miserabilidade que leva-o ao crime. Depois de 19 anos de prisão (cinco por roubar um pão para sua irmã e seus sete sobrinhos que estavam passando fome, e mais catorze por inúmeras tentativas de fuga) acaba sendo libertado. Marginalizado por todos que encontra por sua condição de ex-presidiário, ele acaba tendo que dormir nas ruas, mas é recebido na casa do benevolente Bispo Myriel. Em vez de se mostrar grato, Valjean rouba-lhe os talheres de prata durante a noite e foge. Ao ser preso, é levado pelos policiais à presença do bispo para acareação. Em vez de confirmar o roubo, o bispo salva-o alegando que a prata encontrada com ele foi um presente e que ele havia se esquecido de dois castiçais de prata por causa de sua pressa. Após esta demonstração de bondade, o bispo recomenda que ele use a prata para tornar-se um homem honesto. Transformado, Jean Valjean reaparece no outro extremo da França, tornando-se em um próspero empresário, dono de uma fábrica, e um homem respeitado pela sua bondade e caridade. Eis um exemplo de um inimigo em cuja cabeça se amontoou brasas que consumiram o velho homem, fazendo-o renascer como uma renovada fênix.

Abaixo, um poema de minha autoria dos tempos de faculdade:

O Grito dos Bravos

Onde se testou nossa bravura?
Onde se esgotou a vã doçura?
Onde se expôs tanta loucura?
Capaz de destilar tão vil agrura?
Não, não foi nos campos de batalha
Onde o ódio se esvai, fogo de palha
Como nos tornamos desumanos?
Tão sagrados, tão profanos.
Tão sensatos, tão insanos.
D’onde vêm os gemidos que ouço?
Ecos vindos de um frio calabouço
Nada excede a frieza e a feiura
De quem covarde aos seus dedura?
Que beleza pode haver na captura?
Na verdade extraída sem lisura?
Requintes de crueldade.
Acintes à liberdade.

[1] Publicada em 27/8/1780.
[2] Em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU votou pelo reconhecimento e respeito a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
[3] Amós 1.1; 7.14
[4] 787- 747 a.C.
[5] Amós 8.4‑6
[6] Isaías 58.2,3
[7] Amós 5.21‑24
[8] Amós 7.12‑13
[9] Gênesis 22.11
[10] Êxodo 19.5 / 1 Pedro 2.9
[11] Amós 9.7
[12] Atos 14.16,17
[13] Atos 17.26
[14] Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando “bem nascido”. Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. Fonte: Wikipédia.
[15] Yuri Alekseievitch Gagarin foi um cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1. É dele a célebre frase: “A terra é azul.”
[16] Isaías 40.15
[17] Hebreus 13.13-14
[18] Hebreus 11.14-16
[19] Filipenses 3.4-7
[20] Pietro Gori foi um advogado anarquista italiano nascido em Messina (1865 – 1911).
[21] Gálatas 4.26
[22] Gálatas 4.25
[23] “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).
[24] 2 Coríntios 5.17
[25] Amós 1.3
[26] Viktor Emil Frankl (Viena, 26 de março de 1905 — Viena, 2 de setembro de 1997) foi um médico psiquiatra austríaco, fundador da escola da logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência. Sobreviveu aos campos de concentração nazistas em Auschwitz.
[27] FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Editora Vozes, 1991.
[28] Gênesis 49.5-7; Provérbios 12.10
[29] Gênesis 9.6; Êxodo 6:.9; Salmos 71.4; 74.20
[30] Atos 23.3
[31] Êxodo 12.49
[32] João 7.47-53
[33] HUGO, Victor, Os miseráveis (Volume I: Fantine/ Livro sétimo: O Processo de Champmathieu/ XI. Champmathieu cada vez mais admirado). Lisboa: Editorial Minerva, 1962.

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