Sobre religião e política

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O artigo abaixo, escrito por Paul Freston, foi publicado pala Revista Ultimato em 2014. O conteúdo, porém, é atualíssimo e vale muito a sua leitura.

De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos

Após a eleição de 2010, num artigo em Ultimato, reclamei do nível do debate político entre evangélicos de classes média e média alta. Não era a opção pela direita de alguns que me preocupava, mas sim a maneira como o debate era conduzido. É natural haver defensores evangélicos de várias posições políticas; e eu esperaria ver, da parte dos evangélicos mais favorecidos no sentido educacional, uma discussão madura e não-maniqueísta, que ajudasse a comunidade evangélica a amadurecer politicamente e a exercer seu papel na sociedade com mais seriedade. Em vez disso, em 2010, víamos análises alarmistas, apocalípticas e maniqueístas.

Ao entrarmos no ano eleitoral de 2014, o que podemos esperar? Infelizmente, os indícios não são positivos. Ultimamente, no meio evangélico, têm aparecido vários artigos virulentos contra a esquerda, usando as formas mais espúrias de argumentação, como ataques à moral e às motivações dos que pensam de modo diferente, e a caracterização da esquerda em termos das suas piores manifestações históricas e da direita em termos apenas dos seus ideais.

Estranhamente, uma das caracterizações mais comuns é a da esquerda como autoritária. Além de ignorar os exemplos — muito mais numerosos — de autoritarismo de direita, essa caracterização também ignora o profundo compromisso democrático de seus irmãos na fé que se consideram de esquerda. Pior ainda, não se percebe quão irônico é querer defender a democracia com insultos.

O autoritarismo não se combate insultando e descaracterizando — e, em alguns casos, literalmente demonizando — os que pensam de outra maneira. Pelo contrário, o destempero no “debate” político é inimigo da democracia e pode até preparar o terreno para futuros autoritarismos.

Nossa principal preocupação, então, é com o “estilo” dos ataques à esquerda e o dano que fazem à comunidade evangélica. Os evangélicos mais bem formados, seja qual for a posição política deles, têm o dever de “educar politicamente” a comunidade evangélica por meio de um debate conduzido “de maneira cristã”. Isso significa não insultar o outro lado. Evangélicos de formação privilegiada têm a responsabilidade de fazer uma contribuição evangélica séria ao debate político nacional e de aprofundar o debate político no meio evangélico. Deveriam justificar a sua opção pela direita (perfeitamente legítima) em linguagem sóbria e ponderada, e não em linguagem apocalíptica que coloca em dúvida o “status” evangélico de quem pensa diferente. Deveriam liderar o amadurecimento evangélico num debate político mais sério e condizente com a democracia. Porém, até agora, infelizmente, vemos negligenciadas as virtudes cristãs de busca da verdade e de não distorcer as ações e intenções de nossos opositores.

Além de protestar contra a maneira anticristã como o debate tem sido conduzido, queremos também afirmar a importância desse debate. A metáfora espacial “esquerda-direita” é útil por dois motivos: para a representação simbólica de teorias políticas e para ambos os lados se definirem um em contraposição ao outro. O espectro político esquerda-direita está longe de ser superado. Contudo, as divisões não devem ser vistas como camisa de força, mas sim como uma questão de valores políticos.

A linhagem teórica que reúne a esquerda, de acordo com o cientista político Norberto Bobbio, é o seu ideal de igualdade social, em contraste com a direita que enfatiza o ideal da liberdade individual. Esses termos podem ser imprecisos, mas constituem o ponto de partida para a distinção. Existem casos em que os dois ideais são compatíveis e complementares, outros em que podem excluir-se reciprocamente, e existe a terceira possibilidade: a de buscar o equilíbrio. Com efeito, nenhum dos ideais pode ser realizado completamente sem limitar o outro. No entanto, a esquerda democrática está longe de propor a negação da liberdade. Antes, considera que a liberdade efetiva para todos é possível somente por meio de um certo grau de igualdade.

A democracia tem como elemento central a igualdade “política”. O paradigma liberal afirma que o livre mercado e a democracia não entram em contradição, que existe uma afinidade de valores entre os dois. No entanto, existe um problema fundamental no paradigma liberal, pois o livre mercado limita os que não têm força social para afirmar a sua liberdade. Esta é a crítica mais contundente que a esquerda propõe: quem não tem escolha real está submetido à precariedade e à vulnerabilidade. Portanto, segundo a esquerda, há uma tensão inerente ao paradigma liberal, pois a desigualdade econômica mina os direitos políticos e civis.

Podemos colocar a mesma crítica em termos bíblicos. Uma das caracterizações mais centrais da Bíblia a respeito do ser humano é a condição “caída” dele, ou seja, seu afastamento de Deus e consequente tendência ao pecado e à desintegração interior. Essa é uma das condições mais niveladoras da humanidade: “todos nós” somos pecadores. Essa “comunhão” universal humana no pecado é uma das grandes justificativas da democracia: ninguém merece ter poderes ilimitados e não supervisionados sobre os seus semelhantes.

Apesar disso, o cristianismo, no decorrer da história, foi frequentemente usado para defender ideais de desigualdade. Porém, o princípio da igualdade é como a medicina para nós: é boa, não porque seja necessariamente agradável, mas porque estamos doentes. Devido à natureza caída do ser humano, onde houver desigualdade, haverá opressores e oprimidos. Por isso, “amar ao próximo como a si mesmo” inclui, na medida do possível, o esforço para quebrar as estruturas desiguais que engendram a opressão.

No campo da esquerda política, o valor principal é a busca pela igualdade social. Afinal, a liberdade somente se torna efetiva em conjunto com um certo grau de igualdade. Somente assim, o princípio fundamental da democracia, a saber, a igualdade política, se realiza. Porém vemos, cada vez mais, as instituições globalizadas não eleitas ditando as regras para governos nacionais, muitas vezes à custa do bem-estar da população. E vemos governos se tornando reféns cada vez mais do poder financeiro e econômico. Não é difícil perceber como a desigualdade prejudica a democracia.

Há muitos outros argumentos cristãos que podem ser usados a favor de posições políticas que se costuma chamar de “esquerda”. Há, também, argumentos cristãos para defender posições de direita. Tenhamos, então, um debate adulto no meio evangélico, sem questionar a sinceridade e, muito menos, a condição cristã do outro lado. Entre a revelação bíblica e as opções políticas de hoje, há uma longa “ponte hermenêutica” a atravessar, e, ao atravessá-la, podemos tentar compartir com os outros caminhantes um pouco da luz que temos e estar abertos para receber deles um pouco da luz que talvez possuam.

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Paul Freston é autor de “Religião e Política, sim; Igreja e Estado, não” e “Nem Monge, Nem Executivo – Jesus: um modelo de espiritualidade invertida“, ambos pela Editora Ultimato; e “Neemias, Um Profissional a Serviço do Reino” e “Quem Perde, Ganha“, pela ABU Editora, Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor do programa de pós-graduação em ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos e, desde 2003, professor catedrático de sociologia no Calvin College, nos Estados Unidos. É colunista da revista Ultimato.

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