Os religiosos e o indulto

indulto

Em um dos seus últimos atos, Michel Temer optou ou um “não ato”. Diante do levante da turba, o presidente decidiu não editar o indulto natalino, uma prerrogativa que lhe é dada pela Constituição Federal, no art. 84. Ao lado da multidão de espírito punitivista estavam muitos religiosos, o que efetivamente não surpreende a mais ninguém.

O indulto é causa de extinção de punibilidade também previsto no art. 107, II, do Código Penal, ao lado da graça e da anistia. Ele, no entanto, não é uma invenção brasileira. Talvez muitos religiosos não tenham prestado atenção, mas Bíblia traz uma história bem conhecida sobre o indulto.

Nela, podemos fazer algumas correlações com o momento atual e verificar como o fundamentalismo religioso não muda muito, independentemente das épocas. O indulto era previsto no direito romano, mas também era um costume dos judeus aplicado na páscoa. Nesta ocasião, um preso era libertado numa tradição que assumia possibilidade de, em seus julgamentos anteriores, o estado de Israel ter cometido algum erro. Era uma espécie de desencargo de consciência da nação.

Roma respeitava algumas tradições dos povos que dominava. Por esta razão, Pôncio Pilatos coloca para a multidão uma escolha: libertar Jesus Cristo, preso sob acusações de violar regras religiosas do povo dominado, ou Barrabás que, segundo alguns historiadores, teria sido um subversivo político, acusado de assassinato numa das manifestações das quais participara e onde reivindicava a insurreição contra os romanos.

Levado a Pilatos, Jesus ouve a pergunta maliciosa e, certamente feita em tom escarnecedor, se ele, de fato, era mesmo o rei dos judeus. A resposta foi inquietante para o representante do império: “tu o dizes”.

Com nítida fraqueza de caráter, Pilatos, que parecia não querer condenar Jesus, o entrega para ser açoitado. Sua esperança era de que isto saciasse a ira dos religiosos. Político, ele não conhecia o que corações meramente religiosos são capazes de fazer. Eles queiram mais. Queriam a crucificação do homem que ousou subverter seus dogmas e costumes, atraindo uma multidão e lhes fazendo o bem.

Pilatos transfere a escolha para a população, mesmo ciente de que Jesus não havia cometido crime algum. Um sonho da sua esposa, na noite anterior, o deixara inquieto. Ela o aconselhara a não tocar nele. Mas como um bom político, Pilatos preferiu agradar a maioria e temeu a revolta da multidão. Representando uma ditadura, usou a democracia de ocasião e ouviu a “voz do povo”, conservador e ávido por justiçamento.

De acordo com o registro bíblico, os fariseus eram movidos por inveja de Jesus Cristo. Afinal, os radicais fundamentalistas não se dão bem com a ideia de pessoas que façam o bem e, ao mesmo tempo, neguem suas crenças. Lidar com o diferente não é algo em que a religião encontre prazer.

Imaginem as seguintes situações, atualmente: Entre uma mãe de santo com vasto trabalho social e Pilatos, quem os cidadãos de bem escolheriam? Entre Gandhi e o assassino ou entre Madre Tereza e Barrabás, qual seria a opção?

É estranho como os religiosos negam a própria religião, aquilo que propagam dia a noite com suas eloquentes pregações. Em essência, eles deveriam transmitir perdão e misericórdia, mas são os primeiros a se levantar contra instrumentos da graça.

O Brasil atual, onde transbordam “cidadãos de bem”, ilustra bem essa realidade. Os fariseus modernos querem fazer sangrar seus adversários, mas fazem orações de fraternidade e compaixão. Em se tratando de inimigos políticos, você consegue imaginar que alguns deles tenha desejado sinceramente que investigações comprovassem a inocência dos acusados? Ao contrário, a grita sempre foi no sentido de punir, sem que isto lhes afetasse a consciência religiosa.

A graça, prevista na Constituição, coincide com uma das doutrinas mais belas da fé cristã. Eu diria que um dos fundamentos centrais desta fé, a revelação maravilhosa do amor de um Deus que se entrega pelo culpado, assume o seu lugar, recebe sua condenação e o salva da ira.

Paradoxalmente a religião odeia dispensar graça, perdão, misericórdia. Ela prefere a cruz para os seus adversários. “Indulto, não. Crucifique-os”, gritam eles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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