Teocracia Bolsonariana

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Martinho Lutero, João Calvino e os demais reformadores protestantes foram responsáveis pelo fortalecimento de um dos conceitos mais importantes para as democracias modernas: a laicidade. Dentre suas defesas, a separação total entre Igreja e Estado.

O ganho era duplo. A Igreja podia reconhecer-se em seu papel fundamental de propagar o Reino de Deus, pregado por Jesus Cristo como não podendo ser confundido com o mundo secular, levando os crentes a não se deixarem seduzir pelos encantos do poder temporal e os fazendo diferentes no testemunho, posto que suas preocupações com o próximo eram solidárias, desapegadas, piedosas e jamais com o objetivo de explorá-lo, para onde muitas vezes resvala a política. Ganhava também o Estado, cujo atribuição é trabalhar para todos, independentemente de credos.

No Brasil atual, paradoxalmente, são muitos os líderes evangélicos que subvertem o pensamento dos pais da Reforma. Jair Bolsonaro foi eleito presidente com a ajuda substancial da imensa maioria das igrejas. Parte significativa delas militou como partidos políticos e discursava em tom triunfalista de que havia “chegado a hora de a Igreja governar”.

Uma espécie de amnésia parece ter se abatido sobre os religiosos. A Igreja já governou. O período, de triste lembrança, é conhecido como Idade Média e tinha as marcas do obscurantismo e da violência praticada em nome de Deus.

Na posse de diversos ministros, assim com na do próprio presidente, uma marca: Deus foi muito falado, mas sempre sob o viés religioso dos autores dos discursos. A tradição judaico-cristã foi citada como uma marca a ser resgatada no país e, como consequência, visões contrárias deveriam ser subjugadas e até demonizadas.

Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, bradou: “Viveremos uma nova era. Meninos vestem azul, meninas vestem rosa!”. De novo, há uma falha cronológica no discurso. A era na qual as cores identificam gêneros pode ser tudo, menos nova.

O conservadorismo à brasileira mira o passado, mais parecido com o pensamento reacionário. O problema no Brasil parece mais grave porque o passado que se mira é ainda mais distante. Damares e seus pares caminham movidos pelo interesse cada vez mais patente de implantação de uma teocracia evangélica, o que não necessariamente se refere ao Evangelho.

A compreensão dos reformadores da separação total entre Igreja e Estado nascia, vejam vocês, da Bíblia. Nas palavras do próprio Cristo, seus seguidores não deveriam confundir seu reino com governos políticos. “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus” deixa clara esta distinção. Menos para os ministros de Bolsonaro e para ele próprio, que nem evangélico é, mas segue o discurso triunfalista, como ovelha, guiado pelo reacionarismo que o elegeu.

É preciso lembrar que o Brasil está sob uma democracia, não uma teocracia. Os que se unem em torno da mesma fé precisam viver sob os padrões que acreditam, mas respeitar os que não seguem o mesmo pensamento.

Em outubro, o Brasil elegeu um presidente, mas para muitos estava elegendo um aiatolá.

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