Os fiéis escudeiros do bolsonarismo

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Durante a campanha eleitoral, um fenômeno chamou a atenção de especialistas e da imprensa. Os evangélicos, em ampla maioria, assumiram como nunca uma candidatura à presidência da república.

O escolhido, hoje eleito, foi Jair Messias Bolsonaro. Mesmo se declarando católico, Bolsonaro atraiu o apoio dos líderes das maiores denominações evangélicas do país, arrebanhando os corações das mais variadas correntes teológicas.

De neopentecostais a protestantes reformados, uma voz era quase unânime: a igreja precisava atuar para impedir o retorno do Partido dos Trabalhadores e garantir que um homem, cujo discurso encarnaria os anseios de uma pátria cristã e guardiã dos tradicionais valores da família e dos bons costumes, chegasse ao poder.

E ele chegou, com a decisiva colaboração dos evangélicos. Segundo a pesquisa Datafolha publicada na véspera do pleito (que acertou o resultado do domingo em cheio), incríveis 70% dos protestantes brasileiros declaravam votar em Bolsonaro. Numa projeção de especialistas, o segmento representa atualmente um terço do eleitorado. Portanto, os 10 milhões de votos que separaram Bolsonaro de Haddad coincidem com a diferença no eleitorado evangélico.

O passado de Bolsonaro foi “perdoado” pelas lideranças de igrejas, seu presente foi tratado como possuidor do dogma da infalibilidade e seu futuro, ilustrado no programa de governo, ignorado. Temas como os das reformas da previdência e trabalhista também afetam os evangélicos, mas eles continuam ávidos pelas pautas morais que fizeram o seu escolhido chegar ao poder.

Os mais duros discursos contra negros, gays e mulheres ganharam um revisionismo teológico conivente e muitos líderes buscaram nas páginas da Bíblia a base para toda a ira expressada pelo seu “ungido”.

Em pouco mais de sessenta dias de governo, Bolsonaro conseguiu produzir inúmeras crises que o fizeram o presidente com menor popularidade dentre os que iniciavam mandados desde Fernando Henrique. Os dados são da pesquisa CNT/MDA publicada no fim de fevereiro.

O envolvimento dos seus filhos com o crime organizado carioca ganhou as páginas dos jornais. Flávio Bolsonaro havia, inclusive, homenageado integrantes de milícias, além de empregar parentes deles em seu gabinete. O caso Fabrício Queiroz escancarou o uso de laranjas e envolveu até a primeira-dama, Michele Bolsonaro, esta sim declaradamente evangélica.

Não bastassem os escândalos, o presidente da república usou sua conta no Twitter para postar um vídeo com imagens pornográficas, expondo-as para milhões de seguidores, incluindo crianças. Duramente criticado, Bolsonaro encontrou mais uma vez entre os evangélicos um reduto dos mais fiéis defensores. O Messias havia operado um milagre: os crentes, tão conservadores nos costumes, não viram nada de mais no ato presidencial, mas pelo contrário, o exaltaram pela “coragem” de “denunciar” a indecência do carnaval brasileiro.

O bolsonarismo vai se tornando uma espécie de seita. Ele agrega um líder inquestionável, seguidores acríticos e dogmas de fé irremovíveis. O fanatismo ganha ares de idolatria, fazendo com que, nos púlpitos e na prática, crentes que não aderirem a mesma corrente sejam tratados como menores, hereges e até demoníacos.

Nos 38,9% que se mantêm fiéis a Bolsonaro neste início de mandato, não resta dúvida. Os evangélicos representam o núcleo mais duro, leal e dedicado ao homem exaltado como o “mito”.

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