Cristianismo sem Cristo

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Diante da notícia de que o Papa Francisco havia enviado carta ao ex-presidente Lula, solidarizando-se pelas “duras provas que tem passado” (ele perdeu a esposa, um irmão e um neto), muitos que se apresentam como “cristãos” deram mais uma demonstração de como nada conhecem do Evangelho e em nada lembram o Jesus Cristo que dizem seguir.

Na Jovem Pan, um cruel retrato disso. O comentarista Caio Coppolla julgou não somente o ex-presidente, mas o Papa pela sua atitude.

“Francisco não tem o direito de oferecer perdão porque este só deve ser concedido a quem se arrepende e Lula é um ladrão que jamais se arrependeu”, disse o queridinho da direita brasileira.

Do alto da sua suposta onisciência, Caio criou novas categorias de perdão, perscrutou o coração de Lula e, como um juiz impiedoso, o condenou de novo, desta vez, certamente ao inferno.

Eu trago novidades para o “cristão” Coppolla. Diante de Deus, Lula, o Papa, Bolsonaro, ele e eu somos igualmente pecadores. Diante do Criador, acredite, ninguém é digno de favor algum. Pelo menos é o que afirma o apóstolo Paulo, em Romanos 3;10:

“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer”.

O perdão é uma iniciativa de Deus e um cristão deveria saber isto de cor. Fosse advindo da natureza humana, não seria gracioso, mas o “pagamento” pela obra humana do arrependimento – 1 João 4;10:

“Assim, nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”.

O arrependimento, acredite Caio, também é um presente gracioso de Deus. O coração humano não é capaz de produzi-lo por si só – Romanos 2;4:

“Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te conduz ao arrependimento”.

Não estou aqui entrando na seara da condenação judicial de Lula, mas em um assunto de caráter religioso, de crença, de uma fé que se anuncia cristã. A demonstração de misericórdia dada pelo Papa nada mais é do que o mínimo que espera-se de quem se reconhece pecador, portanto arrependido, gozou do perdão de Deus e, agora, necessariamente será guiado a dispensar o mesmo olhar gracioso para com o próximo.

Na cadeia, num prostíbulo, nas sarjetas das ruas, nos mais altos postos do poder, nos prédios luxuosos, debaixo das pontes… por todos os lugares para onde olharmos, encontraremos gente precisando de perdão. Se o olhar procurar alguém que seja justo, será, na perspectiva dos céus, vão.

O arrependimento leva o pecador a quedar-se diante de Deus, não à humilhação pública. Ele é íntimo, pessoal.

Há muita gente nas igrejas que nunca se arrependeu e muita gente nos presídios que já encontrou o perdão de Deus, subvertendo a lógica da religiosidade vazia. Existe, todavia, um lugar onde é muito difícil encontrar um verdadeiro cristão: é entre aqueles que se acham bons, os que julgam o próximo e colocam-se como superiores. Mateus 7;1-3:

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?”

Como alguém já disse, nenhuma religião é mais perversa do que o cristianismo sem Cristo. E, para lembrar outra passagem, se cada um examinar um pouquinho a si mesmo, irá recolher a pedra e desistir de atirá-la em outro pecador.

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