TERRIVELMENTE CRISTÃO

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“Muitos tentam nos deixar de lado dizendo que o estado é laico. O estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou para plagiar a minha querida Damares [Alves, ministra]: Nós somos terrivelmente cristãos”.

Esta frase é do presidente da república Jair Bolsonaro. Ela foi dita durante um culto realizado, hoje, na Câmara dos Deputados. Logo em seguida, o político anunciou que indicará para ministro do STF alguém “terrivelmente evangélico”.

Nos primórdios, o Cristianismo cresceu com a pregação de uma mensagem que, mesmo nas mais diferentes teologias, centrava-se em virtudes como amor, solidariedade, fraternidade e zelo pelos necessitados.

Todavia, a religião também se tornou terrível sempre que abraçou poderosos e se confundiu com o Estado. Assim, as marcas da violência e da perseguição aos que pensavam de forma diferente surgiram na inquisição, cruzadas e outros momentos nos quais a fé, dita cristã, foi usada para derramar o sangue de adversários.

Ao olhar para a religião, Bolsonaro certamente vai constatar vários modelos para ser “terrivelmente cristão”. Ao olhar para Jesus Cristo, não. Nele, não há como encontrar inspiração para ser terrível.

“Que infunde ou causa terror; assustador, temível”, assim os dicionários definem alguém terrível. Os Evangelhos, no entanto, revelam um Cristo que não reage de igual maneira às ofensas, agressões e perseguição dos seus adversários.

O poder do Estado se associou à religião para praticar um julgamento injusto, injúrias, violência e morte ao Filho de Deus. Em resposta, mesmo na cruz, ele orou ao pai: “perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”.

O Cristo que manda dar a outra face, recolher as armas, perdoar e orar pelos inimigos jamais servirá de inspiração para quem cultua o ódio político, alimenta uma cultura armamentista ou prega o fim das minorias. A religião, sim. Esta foi capaz de mandar para a fogueira os que dela destoavam, apoiar os que escravizavam quem nascia com a pele escura e, vejam vocês, crucificar o Príncipe da Paz.

Um ministro do STF “terrivelmente evangélico” seria, por natureza, impedido de fazer justiça. Ele estaria fadado a praticar apenas cruzada religiosa. Não julgaria, faria inquisição.

Os reformadores protestantes lutaram pela completa separação entre Igreja e Estado, e, a partir deles, se firmou o conceito de laicidade. Aprenderam, porque viram com os próprios olhos, o quanto esta relação causou mal não apenas para os de fora, mas também corrompeu a mensagem cristã.

Um cristão terrível propaga fake news, mas cita João 8:32 o tempo todo, prega metralhar adversários, mas afirma defender o amor, faz campanha armamentista, mas se diz pacificador. Quem assim age, não se identifica com Jesus. É apenas terrivelmente falso.

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